quinta-feira, 15 de abril de 2010

lei do eterno retorno

Um dia ela acordou e ele não estava mais lá. Na verdade, era ela que estava em outro lugar. A cama não era mais aquela, macia e grande. Era pequena, dura. Mal cabia o seu corpo. Pensou e levantou mesmo assim. Apenas por levantar. Teimosia. Esperar um emprego, uma nota de cem reais no meio da rua, que a vida melhorasse ou que ele aparecesse de repente em sua frente. Só que ele não estava mais lá. Pelo menos não estava fisicamente. Em sua cabeça, ele era onipresente. Suas qualidades, seus defeitos e o amor misturado com uma tristeza e com um nojo que só faziam aumentar o nó na garganta e a vontade do coração e de outros órgãos do corpo. Tomou um remédio para passar mais rápido, para que uma nuvem de sono a cegasse momentaneamente. E o telefone não tocava, a caixa de e-mails estava vazia. No outro quarto, murmúrios de uma morta-viva a enervavam. E ela sabia que não podia fazer nada por esse ser meio humano. Nem Orfeu pode fazer muito por Eurídice. O telefone não tocava, ele não estava lá. Pensar é sangrar duas vezes. Tentar encontrar respostas para perguntas que não existem mais... Impassível, o relógio continua seguindo o seu curso em seu ritmo. A caixa de e-mails, ainda vazia. E ele estava em algum lugar que ela não sabia qual era.

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