As pessoas que trabalham em hospitais parecem se acostumar com as crueldades da morte... Digo isto pelo fato de a minha mãe trabalhar em um. Ela sempre contou as histórias que ocorriam lá como se fossem causos absolutamente corriqueiros, sentada na mesa e mastigando um pedaço de bife... Para ela eram fatos comuns, mas para mim tais histórias eram assombrosas. Ainda são, na verdade. As pequenas tragédias do cotidiano sempre me comoveram (também fascinam, não nego) e eu acabava sofrendo por aquelas pessoas que eu não conhecia. Na minha cama, sempre imaginava o fim dos atores daqueles dramas e o que eu faria se estivesse no lugar deles. Fantasiava sobre como reagiria à notícia de uma morte ou sobre qual seria a reação das pessoas quando elas fossem informadas do meu falecimento. Olhar para um vidro cheio de algodão me dava calafrios, pois estas pequenas bolinhas me lembravam tudo aquilo que me ocupava tanto espaço dentro da cabeça. Ainda hoje, o cheiro de soro é para mim o cheiro da morte... Não poderia ser diferente, ao invés de me imaginar princesa como qualquer menina de 8 anos, eu me imaginava viúva, esfaqueada... Mistura de expectativa e repugnância, a minha cabeça era um turbilhão... E pobre mamãe, ainda hoje não tem a mínima idéia dos efeitos das suas historias sobre mim. Bom, eu só não descambei para os dramas do teatro por não conseguir fugir de mim mesma e incorporar convincentemente que eu sou algo que eu não sou. Este prelúdio é só para compartilhar o fato mais triste que eu me lembro de ter escutado:
Uma mulher foi ter seu filho no hospital. Não sei qual era a sua idade, como era o seu rosto, se queria o bebê, se era mãe solteira, como era a sua família, qual era o sexo da criança etc. Só imagino que era pobre pelo fato de o que hospital que tanto me assombrou é público. No parto, ela começou a sangrar. De sua vagina escorria o líquido vermelho aos borbotões e os médicos nada podiam fazer. Não sei se o bebê viveu, este detalhe escapa da minha memória... Só sei que a pobre moça morreu de hemorragia. E que mesmo morta, ela ainda sangrava. O corpo já rígido se recusava a guardar o sangue dentro de si. Não mais aqui, o que lhe dava vida fugia da capela mortuária e ocupava grande parte do chão do hospital. Pobres serventes, tiveram uma tarefa ingrata naquela tarde. As toalhas que colocaram entre as suas pernas foram todas foras tingidas de vermelho... O corpo, quando foi enterrado, estava seco.
O mais irônico nisto tudo é que quando eu comecei a menstruar, sofri durante muito tempo de hemorragias horríveis. Eu, naqueles momentos que sentia o sangue escorrendo das minhas pernas, apesar dos quatro absorventes que usava, era aquela moça. A perspectiva da morte se insinuava entre as minhas coxas, as preces da minha vó para que eu não me tornasse infértil eram a culpa que eu carregava sem saber por que... Durante anos, eu assumi o papel de uma figueira seca sem ter a certeza de que era uma. Também fui obrigada a fazer inúmeras incursões ao hospital, quando a agulha do soro entrava em mim eu morria de medo que a veia também se rebelasse e eu começasse a esguichar sangue pelo braço. Isto, ainda bem, não ocorreu. Das hemorragias, eu me curei. E a minha vó ficou sossegada quando eu anunciei, faz mais de mês, que eu estou grávida. A figueira seca deu frutos... O meu filho, que eu já amo com todas as minhas forças, está bem e eu sei que será mais feliz do que eu fui. E tenho a premonição, e agora também o desejo, de que a trágica morte da mulher não será o meu destino. O meu destino é ele.
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Interessante o teu blog... morbido eu diria...
ResponderExcluirHistória bastante forte.
ResponderExcluirEu sempre tive o msmo raciocínio que o seu, sobre os médicos e a extrema capacidade de se tornar uma pessoa fria convivendo com eles. Porém, sabemos que é necessário, afinal a última pessoa que queremos ver desesperada e perplexa é um médico/enfermeira.
A riqueza de um bebê é mágico. Espero que conte bem a sua história.
Parabéns!
gostei muito do texto
ResponderExcluire interessantíssimo
e tastante forte .
Como disse o amigo ali em cima, mórbido... O.o
ResponderExcluirA história é forte, mas vale cm experiencia d evida.
Sorte e sucesso aí
bom texto ein
ResponderExcluirparabéns pelo blog bem diferente !
http://adolescente-antenado.blogspot.com/
Sensacional!!
ResponderExcluirGostei do texto e do (con)texto. Blog com assuntos profundos e, porque não dizer, CHOCANTE hehe
Mas muito bom! Acaba de ganhar mais um seguidor. Vou colocar teu blog nos meus favoritos, ok!
www.escritasdiretas.blogspot.com
Beijão e parabéns pela nova vida e pela vida que vem por aí.
Que lindo, que maravilhosamente escrito. A história da moça é de uma tristeza absurdamente poética, e o modo como você se confundiu com essa hemorragia fluente foi ainda mais poético. Muitíssimo felizmente, esse verter de sangue não a impediu de realizar seu sonho. Creio que o seu verter de palavras e sentimentos seja muitas vezes mais fluente, intenso e generoso do que a hemorragia física. Você é fértil em todos os sentidos, e se Deus quiser continuará sendo. Ainda leremos muitas de suas histórias e veremos muitos de seus filhos. Beijos e sucesso!
ResponderExcluirNossa, que forte. Chocante até eu diria.
ResponderExcluirParabéns pelo bebê, que seja forte, saudável e que você também fique muito bem, que Deus abençoe vocês. Beijo.
Se puder, dá uma passadinha no meu blog
http://reflexo-da-alma.blogspot.com
:D
O que posso dizer sobre teu texto? Que a morte nos ensina a viver.O fato de eu falar sobre os fatos que vivenciei e continuo a vivenciar é uma forma de mostrar que a vida é muito louca e devemos encarar tudo de uma forma natural.O meu neto via nascer e ver sua mae escrevendo muito e muito ainda.
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